segunda-feira, 19 de maio de 2008

A Evolução da Guerra Fria: Períodos de Tensão. A Crise dos Mísseis de Cuba

A crise dos mísseis de Cuba foi um confronto, durante a Guerra-Fria, entre os Estados Unidos da América, a União Soviética e a Cuba comunista. Foi, juntamente com o Bloqueio de Berlim, o maior conflito deste período e o momento em que estivemos mais perto de uma guerra nuclear.

Em 1962, a coexistência pacífica defendida por Eisenhower e Nikita Krushchev (Entre 1953 e 1958) deu lugar a uma crescente tensão entre as duas superpotências: Fidel Castro criou e governou o primeiro regime comunista do hemisfério ocidental; um avião U-2 foi abatido enquanto espiava território soviético (Maio de 1960) e movimentos comunistas estavam a ser combatidos no sudeste asiático.
Em Janeiro de 1961, J. F. Kennedy foi nomeado Presidente dos EUA, e disse, no seu discurso inaugural, que apesar de procurar a paz coma União Soviética, não iria tolerar nenhuma agressão da sua parte. Assim, começou uma guerra proxy em Angola, o programa Apollo reiniciou a sua “corrida” tecnológica, foi erguido o Muro de Berlim e os soviéticos fizeram detonar a arma termonuclear mais poderosa até então; e o “bluff” da “Tsar Bomba”.
Em 1962, as tentativas de paz no Vietname e na Indochina falharam.

Iniciou-se, assim, uma grande crise. A orientação política do governo de Castro era a maior preocupação da administração Kennedy; Havana temia intervenção militar americana, que em Abril de 1961 foi muito mal tentada com exilados Cubanos treinados pela CIA na Baía dos Porcos. Isto agravou as relações de Castro com os EUA, imediatamente a seguir, declarou Cuba como uma República Socialista e, assim, aproximou-se mais da URSS e obteve dela ajuda económica e militar. Apesar de temerem a adopção do comunismo ou socialismo de qualquer país, para os Americanos, na América Latina era estrategicamente inaceitável.
Portanto, continuaram a usar a Organização dos Estados Unidos (Activa desde 1951) e o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) ou Tratado do Rio (1947) como uma arma contra o comunismo nas Américas, e começou a Aliança para o Progresso dos EUA à América Latina, para controlar o avanço comunista em Agosto de 1961, lançaram uma operação militar secreta contra Cuba no final de 1961 e um embargo económico em Fevereiro de 1962.

Nesta altura, os EUA tinham oito vezes mais bombas e ogivas do que a URSS. No ano anterior ao início da Crise Soviética, Nikita krushchev estava em posição de instalar mísseis nucleares capazes de alcançar a maior parte das grandes cidades Norte-americanas depois do “bluff” da “Tsar bomba”.
Em 1960, durante a campanha presidencial, Kennedy e Lyndon B. Johnson foram informados, que a diferença na capacidade nuclear entre os EUA e a URSS era mais pequena do que Kennedy tinha afirmado durante a sua campanha. A proximidade de Cuba iria reduzir, drasticamente, o tempo de aviso de lançamento dos mísseis e a desvantagem militar da União Soviética.
A instalação destes mísseis em Cuba foi consequência directa da instalação de mísseis na Turquia pelos Americanos e Krushchev expressou, publicamente, o seu descontentamento.

O ambiente político-militar e o receio da invasão Americana de Cuba, levou Krushchev a fornecer à ilha mísseis de defesa costeira em Abril de 1962.
Em Maio de 1962, decidiu instalar mísseis nucleares controlados pelos soviéticos.
No final de Julho, mais de sessenta navios soviéticos chegaram a Cuba com material militar.

O director da CIA (John McCone) avisou o Presidente de que alguns navios estavam armados com mísseis enquanto outros mísseis eram instalados em Cuba. O Presidente convenceu-se de que os soviéticos não fariam isso, pois eles já tinham, anteriormente, negado a existência e a instalação de mísseis em Cuba e comunicado o seu desinteresse em causar um conflito internacional durante as eleições Americanas.
Um voo de reconhecimento fotografou a construção de uma nova série de Sítios para Mísseis Aéreos (SAM), mas no fim de 4 de Setembro de 1962 Kennedy contava ao Congresso que não haviam mísseis ofensivos em Cuba.
Em 11 de Setembro, os soviéticos afirmaram que não tinham necessidade de instalar mísseis fora do solo soviético, e Krushchev comunicou pessoalmente a Kennedy que nenhuma arma ofensiva seria colocada em território Cubano.

Em 8 de Outubro, o Presidente Cubano Osvaldo Dorticós disse, na Assembleia Geral das Nações Unidas, que caso fossem atacados se defenderiam e que tinham ao seu dispor todos os meios necessários para o fazer, apesar de não os querer usar.
Os mísseis só foram descobertos a 14 de Outubro, através de aviões espiões, no Oeste de Cuba.

Os EUA não tinham nenhum plano para lidar com a ameaça devido à crença de que os Soviéticos não iriam instalar mísseis na ilha. O EXCOMM [Comité Executivo do Conselho de Segurança Nacional] discutiu três possibilidades de acção: ataque aéreo sobre os mísseis, invasão militar ou bloqueio naval de Cuba (uma quarentena mais restritiva). O Estado Maior Conjunto concordou sobre a invasão completa como a solução, concordando que a União Soviética não agiria contra isso. Kennedy respondeu: ' Eles, não mais que nós, podem deixar estas coisas passar sem fazer algo ', e admitiu que eles simplesmente não poderiam tirar os mísseis de Cuba depois das suas afirmações anteriores. E se eles não tomassem acção em Cuba, tomariam em Berlim, como atacar por ar faria os Soviéticos presumir uma 'linha clara' para conquistar Berlim. O Secretário da Defesa Robert McNamara apoiou o bloqueio naval como a mais forte acção militar contida. Mas, pela lei internacional, um bloqueio é um acto de guerra, mas a administração sentia que um mero bloqueio não faria a União Soviética atacar. Outro voo espião descobriu bombardeiros e mísseis cruzeiro na costa Norte de Cuba, e Kennedy autoriza o bloqueio à Ilha.

Em 22 de Outubro, atingiu-se o clímax da Crise: aviões de reconhecimento revelaram fotos da construção de plataformas de lançamento de mísseis em Cuba.
No seu primeiro discurso durante a Crise, Kennedy anunciou a descoberta dos mísseis e que iria considerar o lançamento desses mísseis nucleares a qualquer nação ocidental como um ataque aos próprios EUA, retaliando sobre a URSS; Uma hora mais tarde, o diplomata George Ball comunicou aos embaixadores americanos à Turquia e NATO que retiraria os mísseis da Turquia pela retirada dos de Cuba.
(Não se sabe se iriam cumprir isso ou se era apenas uma experiência à reacção da Opinião Pública).
Krushchev comunicou, por telegrama, que iriam ignorar as exigências americanas e o bloqueio. Nessa noite, o nível de alerta subiu para DEFCON 2 (Pela primeira vez na História). Missões militares e de espionagem foram efectuadas durante essa noite e o dia seguinte. A 23 de Outubro Kennedy assina a Proclamação para a Interdição da Entrega de Armas Ofensivas a Cuba.
Quando se revelou que a montagem dos mísseis continuava sem abrandar, Kennedy respondeu com o Memorando de Segurança 199 (autorizando o carregamento de armas nucleares em veículos aéreos, com o dever de fazer os primeiros embates sobre a União Soviética).Ele acreditava que só uma invasão poderia retirar os mísseis de Cuba, mas foi persuadido a esperar mais um pouco e a continuar a pressionar Cuba e a URSS diplomática e militarmente. A União Soviética não mostrou sinais de recuar e os EUA planearam uma invasão a Cuba e um ataque nuclear à URSS, caso eles retaliassem.

Um espião soviético (Aleksandr Fomin) apresentou uma proposta para a negociação da retirada, sob a supervisão da ONU, dos mísseis de Cuba (com a promessa de Castro de não aceitar mais armas), pela promessa da não invasão a ilha.
Os EUA declararam, através do governo Brasileiro que, se retirassem os mísseis, não invadiriam.
Mais tarde, Krushchev repetiu numa carta o plano de Fomin, oficializando a proposta.
Castro ainda estava convencido de uma futura invasão americana, e, numa carta a Krushchev (Em 26 de Outubro) pediu um ataque preemptivo ao solo americano e para que todas as armas anti-aéreas no território cubano disparassem contra os aviões americanos.
Em 27 de Outubro um relatório da CIA mostrou que haviam cinco plataformas de lançamento de mísseis completamente operacionais e que os militares cubanos estavam preparados para agir. Às 9 da manhã a Rádio Moscovo transmitiu uma mensagem de Krushchev que oferecia uma troca dos mísseis soviéticos pelos Jupiters na Turquia. Por volta das12h do dia 27 de Outubro, um avião U-2 foi abatido devido à decisão pessoal de um comandante local soviético, uma acção mais tarde repetida com outros aviões. Isto contribuiu para o aumento da tensão nas negociações.
Às 16h, kennedy ordenou que comunicassem ao Secretário Geral das Nações Unidas U Thant para que pedisse aos russos para pararem o trabalho nos mísseis até ao final das negociações.

Kennedy sugeriu aceitar a proposta de Krushchev (enquanto o Procurador Geral, o seu irmão Robert, descobria se a troca fazia parte das intenções dos Soviéticos, falando com o embaixador Soviético). Lentamente Kennedy havia sido convencido por um novo plano: ignorar a proposta de remover ambos os mísseis pela velha de remover os mísseis pelo respeito da integridade cubana, apesar de Kennedy hesitar sobre se Krushchev quereria recuar tanto nas negociações (o que o punha numa situação pior), e enviou uma carta a Krushchev neste sentido, seguida por uma mensagem ao embaixador Soviético de que acção militar iria ocorrer se os mísseis em Cuba não fossem removidos na condição da proposta anterior. Dean Rusk acrescentou um aviso (apoiado pelo presidente) que um acordo futuro não envolveria referências à Turquia (subentendendo-se a sua remoção voluntária depois da crise).

O exército americano estava preparado para agir a qualquer momento. Às 20:15, a carta de Kennedy foi, simultaneamente, enviada à imprensa e à U.R.S.S.. Havia fracas expectativas de aceitação da oferta. O EXCOMM preparou a escolha de um novo governo Cubano, e avisou os seus aliados da NATO sobre a inevitabilidade de um ataque soviético à Europa. Às 6:00 de 28 de Outubro, os mísseis estavam preparados para o lançamento.

A 28 de Outubro, Kennedy e U Thant concordaram que Cuba não era uma ameaça. Kennedy concordou em remover os mísseis da Turquia depois da remoção dos mísseis em Cuba. Às 9 da manhã Krushchev afirmou pela rádio que iriam desmantelar os mísseis e os lançadores de mísseis “que [os Americanos] consideravam ‘ofensivos’” e devolvê-los à União Soviética. Kennedy viu a carta como “uma importante e construtiva contribuição à paz” tal como a sua própria carta de 27 de Outubro. Como a remoção dos Jupiters só foi feita pública depois da crise, pareceu que Kennedy ganhara o jogo sem concessões, o que feriu a reputação de Krushchev mundial e internamente. O Pacto Diplomático Kennedy-Krushchev levou à criação do telefone vermelho Moscovo-Washington (que ajudaria em crises futuras). As super potências gastaram tanta atenção na crise que outros países viram isto como um tempo de impunidade para agir sem qualquer retaliação destas, como a invasão Chinesa da Índia prova. Depois do assassínio de Kennedy, o seu sucessor Lyndon B. Johnson seguiu a sua doutrina de coexistência pacífica, anunciando planos para reduzir a produção de armas nucleares simultaneamente com Krushchev em Abril 1964. Isto não iria prevenir o envolvimento directo dos Americanos na Guerra do Vietname, e o aumentar da tensão quando Leonid Brezhnev substituiu Krushchev: guerras proxy umas atrás de outras, os Americanos invadem a República Dominicana (social democrata) para prevenir outra Cuba, e a presença militar americana no Vietname do Sul aumentou.

Se analisarmos a crise na base dos líderes envolvidos: Kennedy, Krushchev, os seus gabinetes e os governos dos mais importantes terceiros participantes: a Turquia e Cuba. Kennedy parecia muito interessado na coexistência pacífica com a Rússia Soviética, mas não em capitular para com ela, e em permitir alguma agressão soviética ou alinhada com os Soviéticos ao seu país ou aliados. Krushchev, que teve uma tendência muito pacífica e bastante liberal em relação ao outro bloco e outras tendências ideológicas durante o início da coexistência com Eisenhower, mas em breve traçou a linha de quanto iria permitir, primeiro dentro do seu bloco (a destruição da breve democracia húngara), depois no mundo (apoio o Egipto socialista Árabe durante a crise do Suez) mas não directamente contra os interesses Americanos, e no início dos anos 60 directamente contra o interesse do bloco rival. Mas depois de alguns choques no início do mandato de Kennedy's (que agia duma maneira mais ofensiva-defensiva do que gostaria devido à agressividade russa recente nas relações internacionais), e durante e depois da crise a sua política tornou-se mais pacífica e preocupada com uma eventual destruição nuclear. Podemos dizer que ambos tomaram todas as medidas para evitar o conflito apesar de pressão de ambos os gabinetes, e usaram a oportunidade para criar um mundo mais pacífico no meio do medo da Guerra-fria; apesar das muitas mudanças de ofertas e contra-ofertas de ambos os líderes provam que apesar de quererem a paz fizeram necessariamente qualquer esforço para acabarem a crise por cima. Tem sido sugerido que Krushchev colocou os mísseis em Cuba principalmente como maneira de provocar a crise e daí um tratado com os EUA que asseguraria o direito a existir da Cuba Comunista. Os militares Americanos consideraram a resposta pacífica à crise como "a maior derrota da nossa história" (General LeMay para o presidente Kennedy), e uma invasão deveria ser imediata, e como isto não aconteceu a resposta à expansão do comunismo foi deslocada para o Vietname. O Politburo (Gabinete Político dos Soviéticos) viram os mísseis na Turquia, se possível, como algo pior de que os Americanos viam os mísseis em Cuba, devido ao espírito muito defensivo do povo Russo, além de que a sua abordagem muito militarista à relações internacionais fazia-os não se preocuparem tanto com a perspectiva de guerra, se ela pudesse representar um aumento da sua esfera de influência, melhorando o poder russo nas relações internacionais ou mesmo eliminar o seu grande rival. Como tal eles viram a negociação de Krushchev como um "falhanço", uma prova de fraqueza e falta de inteligência para negociar crises (o facto da remoção dos mísseis da Turquia só ter sido conhecida depois ajudou a esta impressão, tal como o facto da permissão original de Krushchev para responder militarmente a uma invasão de Cuba ter sido retirada mesmo sobre condições extremas). Assim Leonid Brezhnev e os outros rivais políticos de Krushchev ajudaram à sua queda visto que a sua abordagem em relação aos Americanos foi taxada demasiado fraca. Os Cubanos, de acordo com o conselheiro de Kennedy Arthur Schlesinger, viram os mísseis forçados sobre eles por Krushchev como "solidariedade socialista"; assim quando foram removidos Castro estava mais zangado com Krushchev que os seus rivais, também porque não havia sido consultado sobre a sua remoção. O governo turco, tendo uma fronteira terrestre com os Russos e assim muito mais próximo da USSR que Cuba da América, sendo membro da NATO e quartel-general de muitas base americanas, considerava os mísseis Jupiter uma absoluta necessidade para manter a sua segurança e mesmo a sua existência, daí a sua oposição à remoção deles.

A possibilidade de uma nova Guerra-fria e uma nova crise dos mísseis é discutida nos midia. A retórica de Vladimir Putin não aprova o monopólio com “hiper uso da força” americano das relações internacionais. Mas a entrada da maioria da CEI (Comunidade de Estados Independentes) na União Europeia ou na NATO fez com que começa-se a apoiar os pró-russos e separatistas, boicotar produtos e redes virtuais e opor-se à destruição de legado russo/soviético nesses países, não removendo as suas tropas e equipamento militar da Moldávia e Geórgia como se comprometeu em 1999. O historiador Max Hastings vê uma nova Guerra-fria como pouco provável, mas “amizade Ocidental” com uma Rússia que parece estar a criar um bloco ao estilo da Guerra-fria (através da CEI e da Cimeira do Cáspio) “é letra morta”. O temor da nova guerra fria cresceu com a oposição de Putin à colocação do escudo de mísseis Americano Europeu na Polónia e na República Checa, propondo o uso dos radares no Azerbeijão e a colocação dos mísseis em outros membros da NATO ou no Iraque. Mas Putin diz-se por um mundo democrático multipolar, e atribui o militarismo de um Estado-Nação russo “como uma potência do século XIX” à agressividade americana. Acções modernas russas não têm a haver com a Guerra-Fria (não tem uma ideologia a sustenta-la) ou dominação mundial mas antes com a vingança de um Rússia com o orgulho ferido, expansiva de um tipo defensivo tipicamente russo, anexando territórios para defensa nacional após a “grande tragédia geopolítica” (nas palavras de Putin) do período Yeltsin.

Ricardo Mendes, Nº 52216
Vitor Monteiro, Nº 52258

Sem comentários: